Este espaço virtual foi criado com o intuito de compartilhar experiências vividas em sala de aula
(nas disciplinas Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literatura), bem como sua utilização como mais uma ferramenta
para o ensino-aprendizagem de modo a tornar o processo educacional mais instigante e desafiador para
o aluno dessa geração tecnológica.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Como Ensinar o Oral na Sala de Aula

UFPA - CLA
CURSO DE MESTRADO EM LINGÜÍSTICA
LABORATÓRIO DE CIÊNCIAS DA LINGUAGEM
DISCIPLINA: Produção e Compreensão Oral
PROF. DR.: José Carlos Chaves Cunha
MESTRANDA: Rosália Souza de Oliveira

Seminário: O oral no manual didático e na escola:
como organizar um espaço para oral nas aulas de Língua Portuguesa de uma turma de 2ª etapa EJA?

1 Introdução:
As novas reformulações do ensino pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) nos apresentam alguns princípios e orientações para o trabalho didático com os conteúdos, e um deles é a utilização de textos orais na sala de aula. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, ensinar a língua oral na escola “não significa trabalhar a capacidade de falar em geral. Significa desenvolver o domínio dos gêneros que apóiam a aprendizagem escolar da Língua Portuguesa e de outras áreas (exposição, relatório de experiência, entrevista, debate, etc) e, também, os gêneros da vida pública no sentido mais amplo do termo ...” (PCN, 1998:67-68/L.Port). E ainda: “Ensinar a língua oral deve significar para a escola possibilitar acesso a usos da linguagem mais formalizados e convencionais, que exijam controle mais eficiente e voluntário da enunciação, tendo em vista a importância que o domínio da palavra pública tem no exercício da cidadania.” (1998: 67/L.Port.)
Em outras palavras, a escola deve aproveitar a oralidade que o aluno conhece e utiliza em seu dia-a-dia para aperfeiçoá-la, adequando-a a diversas situações de uso. E uma dessas situações diferentes para ele é, com certeza, a situação de falar para um público em uma exposição oral na sala de aula.
Mesmo que este público seja composto por pessoas conhecidas, com as quais o aluno já conversou diversas vezes sobre diversos assuntos, a simples posição de expositor o coloca em uma nova situação perante a turma. Por isso, é necessário que, primeiro, seja dada a possibilidade de o aluno exercitar a expressão oral nessa nova situação a partir de atividades menos complexas para que ele possa desenvolver essa capacidade de modo gradativo.
No que diz respeito às atividades que visam um aperfeiçoamento da oralidade, Este trabalho vai propor alternativas para o ensino do oral em sala de aula, levando em consideração, além dos postulados dos Parâmetros Curriculares Nacionais, o Planejamento Anual da disciplina Língua Portuguesa para a 2ª etapa das turmas de Educação de Jovens e Adultos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Professor Bolívar Bordallo da Silva, bem como o Conteúdo Programático (que foi baseado no programa do PSS 2005) utilizado pela mesma escola.

2. A oralidade na sala de aula:
Segundo Marcuschi (2003:25) “A oralidade seria uma prática social interativa para fins comunicativos que se apresenta sob variadas formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; ela vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso.”
Levando em consideração o conceito de Marcuschi e o que Possenti (1997:47) diz sobre o ensino de língua: “língua não se ensina, aprende-se”, podemos deduzir que as pessoas internalizam as regras da língua somente a partir do uso efetivo dela, devidamente contextualizada, por isso, a escola pode proporcionar seqüências didáticas para o ensino do oral em diversos gêneros a fim de que o aluno possa “treinar” seu desempenho oral e aperfeiçoá-lo, já que ele domina a fala em sua estrutura mais básica (a que permite a comunicação no meio familiar e social em que vive). Porém, só o uso de uma oralidade coloquial, em situações restritas, não é suficiente para o crescimento individual e nem para a inserção política efetiva do educando na sociedade. É necessário, portanto, que a escola se ocupe desse aperfeiçoamento da oralidade.
Mas do trabalho com a oralidade na sala de aula, segundo Antunes (_______:24-25), pode-se constatar uma quase omissão da fala como objeto de exploração do trabalho escolar; uma equivocada visão da fala, como o lugar privilegiado para a violação das regras da gramática; quando esta é aplicada, há uma concentração das atividades em torno dos gêneros da oralidade informal, peculiar às situações de comunicação privada e por último, uma generalizada falta de oportunidades de se explicitar em sala de aula os padrões gerais da conversação, de se abordar a realização dos gêneros orais da comunicação pública, que pedem registros mais formais, escolhas lexicais mais especializadas e padrões textuais mais rígidos, bem como a postura do “falar em público”.
Essa postura do falar em público quando é exigida em sala de aula, é quase sempre como objeto de avaliação, sem que se tenha preparado previamente o aluno para fazer uma apresentação oral.
O problema da escola é que seus procedimentos pedagógicos diferem bastante dos processos de aquisição da linguagem, que, também são passíveis de correção, mas sem o fantasma da reprovação, castigos, humilhações ou exercícios de fixação. A meta das atividades em sala de aula deve ser a aprendizagem e não o ensino.
Baseando-se em objetivos de ensino, e não de aprendizagem, as escolas dificultam o desenvolvimento da língua materna na medida em que priorizam conteúdos programáticos, principalmente os que dizem respeito ao ensino da metalinguagem; deixam de lado o conhecimento que o aluno já tem e promove uma inversão no desenvolvimento das habilidades lingüísticas (o ler e o escrever antecedem o ouvir e o falar).
Para mudar esse panorama, o professor precisa entender que a expressão oral pode realizar-se independentemente da escrita, e é assim que o aluno a conhece, antes mesmo de entrar para a escola. O que se faz necessário, entretanto, é estabelecer desde o início esta distinção (oralidade X escrita) e proporcionar, dentro do ensino de língua materna, a possibilidade de aperfeiçoamento de ambas as modalidades de expressão de acordo com cada um dos objetivos de uma comunicação concreta.
Diferentemente de como se faz na escola, a língua materna não deveria constituir um fim em si mesma, mas em um instrumento para as interações da vida real, que muitas vezes precisam ser travadas através da modalidade oral nas mais diversas situações de uso, tais como: atender um telefonema de uma pessoa desconhecida, dar informações, expor opiniões, fazer reclamações sobre serviços ou produtos às empresas fornecedoras ou prestadoras de serviços, participar de seminários e congressos, etc. É para esses tipos de atividades concretas que a escola deveria voltar os objetivos do ensino do oral em sala de aula.

2.1 A compreensão e a produção oral no manual didático distribuído pelo MEC aos estudantes do Ensino Médio.
A preocupação pelo ensino da leitura e da escrita começa muito cedo, e nem sempre os textos apresentados no livro didático são suficientes para dar conta do incentivo necessário nem a esta tarefa. Em contrapartida, quando se encontra uma atividade oral, esta é quase sempre vinculada a uma atividade escrita (parte-se geralmente de um texto base escrito que se presta a um trabalho de interpretação). Raramente são encontradas referências a outras atividades que estimulem a produção de uma oralidade funcional.
Nada contra os exercícios de compreensão e interpretação de textos escritos, tão importantes para o desenvolvimento do raciocínio. Porém, é preciso desvincular a oralidade de atividades escritas, porque aquela não é o resultado desta e já desde os primeiros estudos lingüísticos, “Saussure apontava para o fato de que a língua tem uma tradição oral independente da escrita e é bem diversamente fixada, sendo, portanto, um equívoco querer avaliar a língua oral a partir da representação escrita”. (in: BRITTO, 1997:51).
Embora essa seja a prática mais comum em sala de aula e também a que é refletida nos manuais didáticos, é preciso observar uma evolução, embora pequena, no que diz respeito ao ensino do oral. Por esse motivo, apresento agora uma análise do manual didático distribuído gratuitamente aos alunos da rede pública estadual de ensino: Português: literatura, gramática e produção de texto (de Leila Lauar Sarmento e Douglas Tufano). Este manual foi escolhido durante a I Jornada Pedagógica Estadual no município de Bragança (em 2004) para a escolha do livro que seria utilizado no ano letivo de 2005.
Os parâmetros traçados para a análise foram:
• A quantidade de seções, capítulos e páginas do manual;
• A existência de seções, capítulos e páginas reservadas ao oral especificamente;
• A existência de atividades de compreensão e/ou produção oral em capítulos ou seções não específicos.

2.1.1. Português: literatura, gramática e produção de texto
Este manual apresenta 3 seções, intituladas Literatura (com 21 capítulos), Gramática ( com 18 capítulos) e Produção de Texto (com 19 capítulos), totalizando 58 capítulos distribuídos em 439 páginas. Destes capítulos, apenas um (1) faz referência específica à modalidade oral da língua, no sumário, o capítulo 42 (Comunicação oral: exposição e argumentação). Porém, quando analisado, este capítulo, que ocupa um espaço de 5 páginas apenas, demonstra que não se preocupou apenas em orientar um trabalho voltado para a aprendizagem do oral.
Como introdução, começou por caracterizar a língua oral em um texto escrito, seguido de atividades escritas que têm como base dois textos também escritos (uma notícia em linguagem formal sobre o surto da pneumonia asiática e o texto “Aí, Galera”, de Luis Fernando Veríssimo, que brinca com situações do discurso oral). Essas atividades, apresentadas com o subtítulo Aplicando, têm como objetivo fazer o aluno perceber apenas a necessidade de adequação da linguagem aos contextos, considerando as diferenças entre língua oral e escrita. No tópico Produzindo, aparecem duas atividades sendo que a primeira deve ser escrita:
“No caderno, escreva um diálogo curto entre dois jogadores de futebol que empregam a linguagem informal. (Pode ser um diálogo entre pessoas que não sejam jogadores de futebol, mas usam gírias e outras marcas de oralidade na fala.)”
Na avaliação da atividade, o próprio aluno deve verificar se usou adequadamente a linguagem informal, sublinhando os termos e construções que indiquem essa linguagem.
Apenas no final, com a 2ª atividade, aparece efetivamente uma proposta de produção oral, mas sempre partindo de um texto escrito:
“Reúna-se com alguns colegas, sob orientação do(a) professor(a). Escolham cinco notícias diferentes em um jornal impresso. Em seguida, planejem uma apresentação oral dessas notícias e imaginem que terão de transmiti-la em um telejornal sério apresentado em horário nobre (usando a linguagem formal) ou em um programa de rádio sensacionalista, em que o locutor “dramatiza” um pouco na apresentação dos fatos (usando a linguagem informal).”
Na avaliação desta atividade, os alunos são levados a ouvir as apresentações e verificar a diferença entre as linguagens apresentadas em cada notícia e registrar seus comentários por escrito.
Nesta primeira parte, que tomou quase duas páginas, os alunos não foram orientados a observar as características de modelos orais concretos antes de passarem a fase de produção.
No tópico que trata do texto argumentativo oral, há a explicitação de como deve ser uma exposição oral, suas características, direcionando os modelos a dois tipos apenas de exposição oral: o debate e o depoimento pessoal.
A respeito do debate, além de caracterizá-lo em um texto escrito, o manual apresenta um esquema didático de como deve ser organizado um debate:
- a necessidade das regras (com alguns exemplos);
- a elaboração didática do roteiro (cumprimento ao público e exposição do motivo do debate pelo moderador; apresentação do tema e dos seus pontos de vista; definição das normas; conclusão com um breve comentário de cada debatedor, síntese do debate e agradecimentos feitos pelo moderador);
- orientações para antes e depois do debate (O que deve fazer um bom debatedor? — assistir a um debate; estudar o tema; participar ativamente; falar e ouvir respeitando os pontos de vista diferentes; respeitar o andamento do debate, suas regras e seu tempo).
Esse esquema, embora não muito detalhado, mas sem dúvida uma inovação, é seguido de uma proposta de atividade de apresentação de um debate em sala de aula:
“Reúna-se com seis colegas para organizar, com a orientação do(a) professor(a), um debate na sala de aula em que a classe será o público. Três debatedores argumentarão, três contra-argumentarão, e um será o mediador.
Escolham um tema entre os fornecidos pelo(a) professor(a). Definam as regras do debate.
Façam pesquisas e reúnam argumentos para a sua exposição em classe. Usem uma linguagem clara, objetiva e concisa para elaborar um texto de apoio. Agora realizem o debate.”

Apesar da inovação, algumas ressalvas devem ser feitas à atividade:
- ela apresenta-se de modo bem fechado, sem deixar margem a adaptações (7 alunos, 3 argumentadores, 3 contra-argumentadores e um mediador);
- as opções de tema fornecidas apenas pelo professor. Por que não deixar que os próprios alunos façam sugestões sobre o assunto que desejam discutir em sala de aula? Isso não significa que o professor não possa fazer sugestões, mas essa etapa deve partir principalmente dos alunos;
- elaborar um texto de apoio pode interferir na apresentação do debate. O aluno pode ser tentado a ler o texto e não a fazer a exposição oral dele. O ideal seria orientar o aluno a organizar um esquema (em tópicos) sobre os assuntos estudados. Os textos que serviram de base para a pesquisa podem estar anexados ao esquema caso precisem ter algum trecho lido.
Na avaliação desta atividade, o manual prevê, para toda a classe, um resumo individual escrito do debate. Como avaliação, essa etapa me parece desnecessária, pois se o objetivo era apenas a produção e a compreensão desse tipo de gênero oral a avaliação poderia ser também oral (em assembléia). Uma atividade escrita caberia como um novo objetivo de uma outra aula sobre produção textual argumentativa escrita e não como avaliação de uma atividade oral.
A respeito do depoimento pessoal, além da caracterização desse gênero, o manual apresenta apenas atividades de leitura e escrita que em nada difere dos trabalhos de compreensão e interpretação de textos tradicionais, bem como pretexto para a exploração da metalinguagem. Estas atividades foram propostas em um subtítulo chamado Leitura:
Exemplo: 1. Beto Silva é integrante do grupo Casseta e Planeta. Ele é o narrador-personagem do depoimento acima. Explique por que mudou sua opinião sobre a Bélgica ao conhecê-la.
2. Ele conta em detalhe como conheceu Brugge. Que tipo de linguagem ele empregou em seu relato? Identifique alguns exemplos.
3. Qual função de linguagem predomina no texto? Justifique sua resposta.
4. Observe em que tempo estão empregados os verbos Explique por quê.
Sob o rótulo Produzindo, a princípio, parecia haver uma intenção de levar o aluno a produzir um relato de experiência de forma oral, mas ao ler o segundo parágrafo da atividade, podemos excluir essa hipótese, pois a proposta de produção é a do relato escrito, que seria passível de correções feitas pelos colegas. Essa atividade, mais do que as outras, destoa completamente de um capítulo intitulado “Comunicação Oral”, não que a atividade em si não deva ser praticada em sala de aula, o problema aqui é que neste capítulo especificamente se supunha um diferencial no que diz respeito à modalidade da língua em destaque.
Se no capítulo destinado à exploração da linguagem oral as coisas se deram desta forma, o que dizer dos outros capítulos e seções?
Ainda na seção Produção de texto, a despeito do título Linguagens e Oralidade, o capítulo 40 não apresenta quase nada de oralidade propriamente dita. Trata apenas da diferença entre linguagem verbal e não-verbal (não especificando se verbal oral ou escrita) e como sempre dando os exemplos de textos escritos. Propõe apenas uma conversa informal entre colegas a respeito de uma gravura de Théodore Géricault (A jangada da Medusa), porém sempre com o objetivo de motivar uma produção escrita. Veja:
a) Converse com um(a) colega: Como as personagens estão posicionadas no quadro? Quais são seus gestos? Quais sentimentos podem ser percebidos ali? O que representa a alternância do claro e do escuro?
b) Agora cada um vai escrever um texto curto com a história que imaginou a partir dessa imagem.
Além disso, o que podemos encontrar para relacionar com a oralidade neste capítulo é a representação da linguagem oral em gêneros escritos bem específicos, tais como as HQs, mas nada especificado ou estruturado que leve ao trabalho de compreensão ou produção oral como concebido neste trabalho.





Xérox de HQs do manual para exemplificar o tipo de linguagem utilizada









Assim como nos demais capítulos desta seção, todas as atividades são voltadas para um trabalho com gêneros escritos.
Ex.: Invente com um(a) colega uma história em quadrinhos(...). Avaliação: Troquem sua história em quadrinhos com outra dupla. Verifiquem se o enredo está pertinente (...) e as ações das personagens estão encadeadas. Comentem por escrito suas observações. (...)
Na seção Literatura, há, com freqüência, ao final de cada assunto, uma dica de leitura recomendada ou dica de filme. Embora as dicas de filme superem em número as dicas de leitura (18 contra 13), elas são apenas ilustrações de assuntos previamente tratados por escrito no manual (veja exemplo em anexo). Não há nenhuma atividade proposta a partir do filme sugerido, nem alguma atividade de produção oral a partir dos textos escritos desta seção.
Na seção Gramática, o capítulo 22, que trata da variação lingüística (um fenômeno primordialmente oral), traz apenas a teoria a respeito dos meios que produzem essa variação bem como uma das classificações dos níveis de linguagem, tudo exemplificado com textos escritos, retirados do acervo literário. A isto se seguem atividades tradicionais de compreensão textual e exercícios de fixação da metalinguagem estudada.

3 O programa curricular para o ensino médio EJA
O programa curricular para a disciplina Língua Portuguesa do Ensino Médio usado na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Prof. Bolívar Bordallo da Silva no ano de 2005 é baseado em conteúdos programáticos do PSS, ou seja, voltados para a preparação dos estudantes ao ingresso no ensino superior.
O conteúdo é extremamente extenso, inclusive para as turmas do ensino regular , pois além dos conteúdos gramaticais, ele contempla também os conteúdos de literatura (com exceção da 3ª série, na qual existe carga horária disponível para duas disciplinas distintas – Língua Portuguesa e Literatura).
Se este programa já é excessivo para as turmas regulares, para as turmas da EJA ele é completamente inconcebível, pois além de mesclar conteúdos de duas séries distintas, mantém a junção de assuntos das duas disciplinas (L.Portuguesa e Literatura) até mesmo na 2ª etapa, que vale pelo término do nível médio.
Nessa situação, os problemas com o tempo se agravam ainda mais porque essas turmas funcionam apenas no 3º turno (noite), que tem a carga horária reduzida para 5 horas aulas diárias de 40 minutos cada, enquanto que no 1º e 2º turnos essa carga horária é de 6 horas diárias de 45 minutos.
Além do mais, o programa só faz referência à modalidade oral da língua no tópico “Níveis de Linguagem” (na 1ª unidade), podendo o professor pressupor que só se deva trabalhar essa modalidade da língua neste momento específico, embora o Planejamento anual e os PCNs façam menção à importância do ensino aprendizagem do oral na escola.
Diante desse quadro, e pensando nos prejuízos que uma turma de EJA pode sofrer no ensino do domínio da língua materna, resolvi elaborar propostas de atividades de ensino aprendizagem do oral voltadas para essa clientela, no intuito de minimizar os problemas com relação a tempo em sala de aula (porque o material sonoro não precisa ser copiado) e também como proposta de colocar em ação, em uma única atividade, vários conteúdos impostos pelo currículo.
Tomando como parâmetro o conteúdo programático da 2ª etapa (em anexo) e levando em consideração que as aulas de Língua Portuguesa no Ensino Médio EJA sempre são ministradas em 4 horas/aula noturnas semanais, divididas em 2 dias (2 h/a de 40 minutos cada), elaborei duas atividades, através das quais podemos ministrar conteúdos referentes à narração, discurso direto e indireto, leitura e produção de texto, apreciação dos níveis de linguagem na modalidade oral, coesão e coerência, modalizações, entre outros que poderemos encaixar em uma possível extensão dessas atividades à modalidade escrita da língua e/ou a outros objetivos de aplicação da mesma atividade (a partir de adaptações da mesma).


4 Propostas para o ensino do oral na escola: a técnica do resumo
Nossos alunos têm certa dificuldade de resumir textos porque têm uma concepção errada do que seja o resumo. Freqüentemente recebemos trabalhos de pesquisa que são verdadeiras “colagens” de partes de textos, nos quais não se verificam nem a manutenção do que é essencial ao assunto e nem a progressão do texto. Mas o principal problema ainda está na falta de relação entre as partes que compõe o texto como um objeto único.
Segundo Savioli e Fiorin (1994:420), “Resumo é uma condensação fiel das idéias ou dos fatos contidos no texto (...) é, pois, uma redução do texto original, procurando captar suas idéias essenciais, na progressão e no encadeamento em que aparecem no texto.” E ainda: “uso de um procedimento apropriado pode diminuir as dificuldades de elaboração do resumo”.
Partindo desse ponto de vista e para minimizar as dificuldades que nossos alunos têm de resumir textos, elaborei estas propostas de ensino baseadas na compreensão e na produção oral que facilitam a sintetização de idéias expressas por um determinado texto, também oral e que vão ajudar o aprendente a perceber a verdadeira noção de resumo como tal e não mais como recortes aleatórios de partes do texto.
É preciso também atentar para o fato de que muitas vezes quando vamos resumir um texto, precisamos fazer adaptações em sua linguagem. Dependendo do texto base e do objetivo do resumo, precisamos fazer a transformação do tipo de discurso (discurso direto para indireto e vice-versa) e fazemos isso com muita freqüência no nosso dia-a-dia, por isso, é importante aproveitar esta habilidade para levar à apreciação dos alunos em sala de aula, pois é só analisando seu próprio comportamento oral que o aprendente é levado a aprimorá-lo, reproduzindo ou fazendo recriações a partir de outros discursos.
A atividade na modalidade oral também tem o objetivo de ganhar tempo na sala de aula, tempo que se tem desperdiçado copiando fórmulas, terminologias gramaticais e conceitos abstratos para serem decorados, faltando tempo depois para uma aplicação concreta e utilização imediata pelos alunos.

4.1 1ª Atividade de compreensão e produção oral: (escutar para reformular e sintetizar)
A narração resumo
Objetivos: Além de reproduzir o texto oral em forma de resumo, o aluno pode a partir dessa atividade depreender o esquema da narração, que é um componente curricular desta série.

Texto base: Documento sonoro e visual (programa de TV)
Metodologia:
ANTES DA ATIVIDADE (aula anterior)
 Audição: Pedir, em aula anterior, para os alunos assistirem um programa na televisão na véspera da próxima aula (vale reportagem, capítulo de novela, debate, filme...), informando que eles terão que contar para a turma um resumo do que assistiram (o professor deve marcar o dia em que devem assistir para que haja várias coincidências e assim haver possibilidade de se montar grupos).
 Caracterização de resumo: Informar que um bom resumo deve conter:
a) as partes principais do texto base;
b) progressão e
c) um bom encadeamento entre suas partes.
Tempo estimado: 15 minutos finais de uma aula.

DURANTE A ATIVIDADE
 Rememorização: Juntar, em grupos, os alunos que assistiram ao mesmo programa e deixar que eles conversem entre si para relembrar o que assistiram.

 Planificação: Solicitar que organizem, em grupo, um esquema da ordem em que os fatos devem ser apresentados oralmente para a turma. Informar que o tempo deve ser de 3 ou 5 minutos para cada equipe (conforme a extensão e o tipo do programa que assistiram).

 Apresentação: Um aluno de cada grupo deve ser o narrador. Ele deve contar para as outras equipes o conteúdo do programa que sua equipe assistiu, resumindo-o em 3 ou 5 minutos. (novelas e filmes precisam de mais tempo do que reportagens e debates porque são mais extensos e têm mais personagens envolvidos)

 Gravação: O professor deve gravar todas as apresentações orais. Estas consistirão em novo material sonoro para a fase de avaliação.
Tempo estimado: (10 minutos para as orientações iniciais, 15 minutos para rememorização e planificação e 55 minutos para as apresentações dos grupos) = 2 horas aula

APÓS A ATIVIDADE (a partir das gravações)
Avaliação: Consiste em observar se os resumos orais obedeceram aos requisitos básicos da atividade (tempo estipulado, ser totalmente oral, e se o resumo teve suas 3 características mantidas);
Depreensão das características desse tipo textual (a narração):
a) Como começam (se há fórmulas repetidas)
b) A ordenação das ações
c) O tempo verbal
d) As personagens
e) Quem conta e como conta (narrador e foco narrativo)
Tempo estimado: 80 minutos = 2 horas aula
Obs.: O tempo total da atividade foi previsto para 175 minutos = 4 horas aula + 15 minutos.

4.2 2ª Atividade de compreensão e produção oral: (escutar para reconhecer e reformular)
Resumo / recriação e dramatização criativa
Objetivos: Além de motivar a escuta através da música, a atividade deve promover uma interação verbal entre os aprendentes a partir da reconstrução do material sonoro pela dramatização, despertando também, junto ao lado criativo, a consciência da necessidade da transformação do discurso (indireto para direto), que também faz parte do conteúdo programático previsto para esta série.

Texto base: Documento sonoro longo (música: Saga de um vaqueiro – Catuaba com Amendoim)
culminando em produção oral através da dramatização.
Metodologia:
1º PASSO: audição
 1ª audição: Tem como objetivo o reconhecimento da seqüência narrativa (leva os ouvintes a compreenderem o que acontece na história musicada que ouvem)
 2ª audição: O objetivo é observar os personagens para caracterizá-los e representá-los depois.
Tempo estimado: 25 minutos

2º PASSO: trabalho em assembléia (toda a turma)
 Caracterização das personagens: Fazer o levantamento das personagens (quantas?) e organizar uma ficha com a caracterização de cada um deles, bem como elaborar uma ficha para uma coletividade que participa das ações.
Tempo estimado: 15 minutos

3º PASSO: trabalho em grupo (alunos organizados em 2 grandes grupos)
 1º grupo: Organiza a representação de uma versão da história narrada na música;
 2º grupo: Organiza a representação de uma continuação para a história.
 Os grupos devem ser orientados a organizar a seqüência narrativa de forma a serem apresentadas em no máximo 6 minutos.
Tempo estimado: 40 minutos

4ª PASSO: apresentação e gravação (na aula seguinte)
 Apresentação: Cada grupo faz sua apresentação em 06 minutos.
 Gravação: Se possível, o professor deve gravar as apresentações em vídeo. Caso não seja possível, a gravação pode ser feita em fita cassete. Esta gravação deverá ser útil na fase de avaliação das atividades.
Tempo estimado: 25 minutos (contando com o intervalo para a arrumação do cenário)

5º PASSO: Avaliação (a partir das gravações, verificar a coesão e a coerência dos textos orais)
 Consiste em observar se a 1ª representação foi fiel ao texto base e se na 2ª foram mantidas as características pré-definidas para as personagens.
Tempo estimado: 55 minutos
Obs.: O tempo total da atividade foi previsto para 160 minutos = 4 horas aula.

5 Conclusão:
Sempre contamos coisas que pensamos, que fazemos e que ouvimos outros dizer ou fazer. Essa é uma competência que temos desde que aprendemos a dominar a língua oral. O uso dessa faculdade em sala de aula serve como motivação para o aprendente começar a analisar os fatos da língua a partir de sua própria linguagem oral.
O uso da metalinguagem e o acúmulo de conteúdos que nunca vão ter utilidade prática na vida do estudante, na visão do professor atualizado, devem ser banidos da sala de aula, pois além de desmotivarem o aluno (pois consistem em um conteúdo repetitivo e cansativo) também são uma perda de tempo (já que o aluno estuda sempre as mesmas coisas e nunca entende sua utilidade).
É importante então, o professor lançar mão do que o livro didático pode oferecer de bom, mas também saber ser criativo e improvisar atividades ou mesmo modificá-las para que se aproximem mais da realidade do aluno e estes não dispensem muito esforço cognitivo para aprender coisas de que nunca irão precisar.
As atividades sugeridas neste trabalho podem ter continuidade também com a expressão escrita, mas como nosso objetivo aqui é explorar o oral, fica aqui uma janela aberta para que elas possam se multiplicar conforme os objetivos da aula programada pelo professor.
Após uma amostra do que se pode fazer, em sala de aula, a partir de atividades de compreensão e produção oral, só resta um questionamento: Se estas atividades estão contempladas tanto no Planejamento anual quanto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, o que está faltando para que se dê a devida importância à modalidade oral da língua tanto nos manuais didáticos quanto na sala de aula?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro e interação. ___________: Parábola, ________.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2003.
PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: Língua Portuguesa – terceiro e quarto ciclos. Secretaria de Educação Fundamental, Brasília: MEC/SEF, 1998.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) Ensinar Gramática na Escola. Campinas – SP: ALB/ Mercado de Letras, 1997.
SARMENTO, Leila Lauar & TUFANO, Douglas. Português: literatura, gramática, produção de texto. Volume único. São Paulo: Moderna, 2004.
SAUSSURE, F. Curso de Lingüística Geral. In: BRITTO, Luiz Percival Leme. A Sombra do Caos: ensino de lingual X tradição gramatical. São Paulo: ALB/ Mercado de Letras, 1997.
SAVIOLI, Francisco Platão & FIORIN, José Luiz. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1994.

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